quarta-feira, 20 de março de 2013

*O racismo de Chatô :missa rezada por padre preto traz uma urucubaca sem tamanho.*

   Ainda em 1938 ele organizou raid de aparelhos do Rio até a cidade de Campos, no in- terior do estado. Com vários repór- teres cobrindo os preparativos, entre- vistando pilotos, e mais uma equipe recebendo a esquadrilha na cidade fluminense, a viagem renderia páginas e páginas nos jornais e revistas Associados. O sucesso da iniciativa o animaria a repeti-la mais duas vezes, e sempre com um número cada vez maior aviões envolvidos: na segunda, viajaram até a usina de açúcar Tamoio, na cidade paulista de Araraquara, e na terceira foi-se ainda mais longe, a Guatapará, também no interior paulista. Assim como havia repórteres especializados em economia, em política, em esportes, os Associa- dos passaram a ter um setorista de aviação, escolhido pessoalmente pelo dono: o jovem cea- rense Edmar Morel, que ganhara fama meses antes com uma série de reportagens na Amazônia sobre o coronel inglês Percy Fawcett, desaparecido misteriosamente quando investigava a existência da tal civilização branca que a selva brasileira esconderia assunto que havia sido levantado em 1924 por O Jornal.
      A aventura seguinte seria mais arriscada: Chateaubriand planejava organizar uma expedição aérea de nada menos que sessenta aviões do Rio e Porto Seguro, na Bahia, para ali festejarem o aniversário do descobrimento do Brasil. Estaria tudo muito bem se não fosse por um problema: Porto Seguro não tinha aeroporto. Acionado pelo jornalista, Getúlio entusiasmou-se com a viagem, e sessenta dias depois o aeroporto pronto. Com uma escala para reabastecimento em Vitória e outra em Caravelas, no litoral baiano, os aviões por fim desceram em Porto Seguro. A modesta prefeitura local teve de mandar fazer às pressas trinta privadas públicas e arranjar 140 camas com o Exército para acomodar os pilotos, radiotelegrafistas e os mecânicos. Logo que os aparelhos pousaram, o vigário da cidade, um negro anunciou que havia preparado uma surpresa para Chateaubriand e os mais de cem pilotos e acom- panhantes que tinham feito parte do raid: iria oficiar uma missa no mesmo local em que frei Henrique de Coimbra havia rezado a primeira missa Brasileira, em maio de 1500. Ao ouvir aquilo, Chateaubriand chamou, Edmar Morel a um canto:
- Seu Morel, demita esse preto da minha festa. Um preto rezar a nossa missa? De modo algum! Dê um jeito de chamar com urgência o bispo de Ilhéus, que é ariano. Em missa de branco eu atuo até como coroinha, Seu Morel, mas missa rezada por padre preto vai nos trazer uma urucubaca sem tamanho.

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segunda-feira, 18 de março de 2013

Só diabo explica!

Homem é morto com tiro na cabeça dentro de igreja em Porto Alegre

Vítima era ex-genro do suposto assassino, um militar da reserva que era de ministro da eucaristia na igreja onde incidente ocorreu

 Um homem foi morto a tiros neste domingo du- rante uma missa na Igreja Santa Rita de Cássia, no bairro Guarujá, zona sul de Porto Alegre, in- formaram fontes policiais.

A vítima, identificada como José Evandro Saldanha Rodrigues, de 35 anos, era ex-genro do suposto assassino, Luis Francisco Goulart Porto, de 55 anos, um militar da reserva que desempenhava a tarefa de ministro da eucaristia na igreja onde o incidente ocorreu.

De acordo com as fontes, Porto disparou quatro vezes em seu ex-genro pouco depois do término da missa dominical, enquanto cerca de 200 fiéis saiam da igreja. O delegado Gabriel Bicca, da Polícia Civil, informou que Porto foi detido em flagrante no momento em que deixava a igreja e pouco tempo depois de ter jogado fora sua arma.


O suposto homicida foi conduzido a uma prisão local e será acusado de assassinato, informou o delegado responsável pela investigação à imprensa local. Testemunhas citadas pela versão online do jornal Zero Hora asseguraram que o autor dos disparos saiu da igreja durante a missa ao saber da presença de seu ex-genro, possivelmente com o objetivo de buscar uma arma, e retornou meia hora depois.

Ao término da missa, Rodrigues, que estava acompanhado por uma mulher, se aproximou de seu ex-sogro, que lhe efetuou um disparo na cabeça à queima-roupa e depois efetuou outros três tiros. Fontes policiais disseram ao Zero Hora que a ex-mulher da vítima tinha o denunciado pelo menos 17 vezes por ameaças e agressões, sendo que a última tinha sido feito há menos de uma semana.

O casal, que foi casado por 15 anos, tinha dois filhos e estava separado há um ano.
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Hackers derrubam site de CartaCapital

   O site de CartaCapital ficou quase 12 horas fora do ar na quarta-feira 13 provavel- mente devido a ataque de hackers ligados à Te- lexFree, nome fantasia da empresa Ympactus Comer- cial Ltda. Um dia antes, a página eletrônica da revista havia publicado um texto do jornalista Luis Nassif sobre supostos golpes aplicados pela empresa no Brasil. O site de Nassif e outros veículos que republicaram o artigo também ficaram fora do ar.

A suspeita é que os servidores desses sites tenham sido alvo de um ataque de “DOS” (Denial of Service), que consiste em forjar o envio de milhares de solicitações de nova conexão a um destino, fazendo com que o serviço fique lento e consumindo recursos computacionais até extrapolar a capacidade máxima do sistema.

No mesmo dia, o artigo de Nassif recebeu mais de 60 mil acessos, embora o site estivesse fora do ar. O texto mostrava em detalhes como a TelexFree conseguiu angariar mais de 300 milhões de reais em um esquema online do golpe da pirâmide. O gole, segundo o jornalista, foi montado em 2009 pelo capixaba Carlos Wenzeler por meio de um site denominado Disk à Vontade. Para entrar no jogo, o usuário pagava até mil dólares e colocava publicidade em sites dos serviços de VoIP (telefonia pela Internet) da TelexFree. Por cada publicidade colocada, receberia 20 dólares. “Acontece que toda a remuneração dos primeiros da fila era bancada pelos últimos que entravam – como em toda pirâmide, levando ao estouro da boiada depois de algum tempo”, escreveu Nassif. O esquema chegou aos Estados Unidos, onde Wenzeler se tornou sócio de uma pequena empresa de VoIP. A partir de 2002, quadrilhas atuaram para vender o negócio em sites como o Youtube. A estratégia consistia em exibir vídeos com participantes que enriqueceram rapidamente. A Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda informou que a “oferta de ganhos altos e rápidos proporcionados principalmente pelo recrutamento de novos entrantes para a rede, o pagamento de comissões excessivas, acima das receitas advindas de vendas de bens reais, e a não sustentabilidade do modelo de negócio desenvolvido pela organização sugerem um esquema de pirâmide financeira”.

O caso foi encaminhado para a Polícia Federal e ao Ministério Público.

segunda-feira, 11 de março de 2013

A intimidade do Poder de sete governadores

Foi com o título “Na intimidade do Poder” que o jornalista Abelardo Jurema Filho retratou, em seu livro “Paraíba Feminina”, a figura marcante de Lourdinha Amorim (Maria de Lourdes Régis Amorim), que durante 16 anos comandou o Cerimonial do Palácio da Redenção, sede do Executivo paraibano, de lá saindo para a Assembléia Legislativa por perseguição sofrida no governo Burity. Natural de João Pessoa, filha de família tradicional e aluna do tradicional Colégio das Lourdinas, ela foi impecável no papel de relações públicas, convivendo com pelo menos sete governadores e atuando com a discrição e a fidelidade exigidas pelo difícil cargo. Lourdinha dizia-se “casada com o trabalho” e sua imagem tornou-se emblemática no organograma do Poder estadual.
Ela ingressou no serviço público pelas mãos do ex-governador Ernani Sátyro, que classificava como político austero e autêntico. Convidada para assessora de gabinete, com a missão de receber autoridades e providenciar recepções oficiais, Lourdinha criava, instintivamente, o que acabou se concretizando como Serviço de Cerimonial do governo. Pelo seu depoimento a Abelardo, Ernani queria uma figura feminina para anfitrionar personalidades influentes em visita à Paraíba. Posteriormente, o governador Ivan Bichara Sobreira criou o cargo de assessora-chefe de Relações Públicas e disciplinou o setor. Seguiram-se os governadores Dorgival Terceiro Neto, Tarcísio Burity e, finalmente, Clóvis Bezerra, a quem coube sancionar a lei que criou efetivamente o Cerimonial do Palácio. A convivência com sete governadores fez com que ela observasse atentamente os estilos de cada um, bem diferentes, como pontuou no depoimento a Abelardo Jurema Filho.
O mais indisciplinado
Na sua opinião, o mais irreverente e rebelde era Dorgival Terceiro Neto, que esbravejava contra as exigências do Cerimonial e não gostava de formalismo, embora, no final das contas, obedecesse a regras do protocolo. Sobre Ivan Bichara e Clóvis Bezerra, Lourdinha enfatizou o temperamento mais afável, sublinhando o tratamento gentil com todos os servidores do Palácio. O título de “mais indisciplinado”, na sua versão, ficaria com o ex-governador Wilson Leite Braga, atual deputado estadual, que não gostava de cumprir horários, não obedecia à agenda e sempre agia de acordo com sua intuição. Mas isso não queria dizer que não fosse um homem simples e de fácil relacionamento. No mesmo livro de Abelardo, consta um depoimento de Mirtes Sobreira, esposa do ex-governador Ivan Bichara Sobreira e sobrinha do ex-ministro José Américo de Almeida, que era uma espécie de “consultor” dos governantes e tinha influência na escolha de alguns dos ocupantes do Palácio da Redenção no regime militar.

Ivan Bichara despachando sob os olhares do ex-governadores
Tarcísio Buritu, Wilson Braga e Antonio Mariz.
Dona Mirtes declarou a Abelardo que não queria que Ivan fosse governador e lembrou que a passagem pelo poder não alterou o patrimônio da família, apesar da maledicência de alguns opositores que chegaram a redigir carta anônima tentando denegrir a imagem de Ivan Bichara. O episódio a que ela se referiu ocorreu ao final do mandato do ex-governador, que já ensaiava a candidatura ao Senado. O documento apócrifo foi encaminhado a deputados e chegou a ser publicado na imprensa, com denúncias de nepotismo e supostos abusos de poder na administração. “Foi uma tentativa vil e mesquinha de macular a integridade de Ivan, que, no entanto, saiu ileso desse episódio e cumpriu seu mandato com altivez e dignidade”, relatou Mirtes, nascida em Guarabira. Sobre seu papel como primeira-dama, ela narrou que assumiu-o sem ter muito jeito, mas procurou cumpri-lo dedicando-se de corpo e alma aos mais humildes e engajando-se em obras assistenciais do falecido Padre Hildon Bandeira, em Brasília de Palha. A ex-primeira-dama negava interferências nas decisões políticas tomadas por Ivan, embora admitisse como natural trocar idéias a respeito de determinados assuntos. O que a deixou decepcionada foi a traição sofrida por Ivan quando se candidatou ao Senado em 78, perdendo a vaga para Humberto Lucena. Uma frase emblemática dita por ela a Abelardo: “Na política, quando se é honesto, com o que se ganha não dá para sair rico”. 

sexta-feira, 8 de março de 2013

O fim do chavismo?

O segredo mantido pelo presidente Hugo Chávez sobre a natureza exata de sua doença sempre sugeriu que se tratava de um câncer de mau prognóstico (confira A política da doença, em -CartaCapital 701)*. O anúncio da recaída e da quarta cirurgia em 18 meses indica que a esperança de um milagre não se realizou. A última operação foi bem-sucedida segundo os boletins oficiais e os cubanos certamente se empenharam pelo homem que tirou Cuba do isolamento e da crise a sufocá-la desde o colapso da União Soviética. A medicina tem limites e a recuperação seria “complexa, difícil e delicada”, admitiu seu vice e chanceler Nicolás Maduro.
Antes de partir para Havana, o líder bolivariano admitiu pela primeira vez que podederia ocorrer algo para “inabilitá-lo de alguma maneira” e pediu que nesse caso o povo venezuelano eleja Maduro.

Chávez, por fim, admite sua mortalidade. Mas isso não significa necessariamente o fim do Chavismo Foto: Leo Ramirez/AFP
A notícia da recaída atropelou a campanha para as eleições dos governos e assembleias estaduais em 16 de dezembro. Depois da reeleição do presidente, o desfecho da disputa pelo governo do estado de Miranda, entre o ex-candidato presidencial da oposição Henrique Capriles e o ex-ministro e ex-vice chavista Elías Jaua, deveria ser o fato político mais importante, pois definiria se Capriles terá fôlego para liderar a oposição nos próximos seis anos. Agora, isso passou a segundo plano. Mais importante, para os analistas, -será sentir nas ruas e nas urnas se a -doença do líder levou desânimo a seus eleitores e militantes ou os mostra dispostos a construir um chavismo sem Chávez.
Apesar das esperanças declaradas da oposição venezuelana e das direitas -latino-americanas e estadunidenses, o falecimento de Chávez não significa a morte do chavismo. O varguismo permaneceu no poder por uma década após o suicídio de Getúlio Vargas em 1954 e foi a principal referência da oposição até ser superado pelo PT em 1989. E o peronismo manda na Argentina de hoje, quase quatro décadas após a morte de Juan Perón em 1974.
Chávez já governou a Venezuela por quase 14 anos, pouco menos que a duração da primeira era Vargas (1930-1945) e bem mais que a soma dos dois governos de Perón (1946-1955 e 1973-1974), com a diferença de ter sido sempre -escolhido em eleições livres e sem fraudes (com forte ajuda da máquina estatal, sim, mas é outra questão). Tanto quanto ambos, se não mais, transformou seu país de forma a deixar sua marca por muito tempo e influenciou mais os rumos das nações vizinhas que qualquer um deles. Pode não ser mais o sucessor aparente de Fidel Castro como porta-voz das esquerdas latino-americanas (e não é impossível que o idoso cubano lhe sobreviva), mas tudo indica que seu futuro como símbolo, ao menos, parece tão assegurado quanto o de Che Guevara, Salvador Allende ou o próprio Simón Bolívar. Mas símbolo do quê, exatamente?
O mundo ouviu falar do tenente-coronel Chávez pela primeira vez em 4 de fevereiro de 1992, quando liderou um golpe fracassado contra o governo de Carlos Andrés Pérez. Para os jornalistas de fora, soou como uma quartelada latino-americana como qualquer outra, mas tanto o líder como as condições de seu país eram muito peculiares.
O primeiro governo de Pérez, em 1974-1979, cumpriu o programa -oficialmente social-democrata de seu partido Ação Democrática e foi relativamente progressista. Reatou relações com Cuba, apoiou o retorno do socialista Felipe González à Espanha após a morte de Franco, combateu os regimes de Augusto Pinochet, no Chile, e Anastasio Somoza, na Nicarágua, e ampliou políticas sociais com base no aumento da renda das exportações proporcionado pelos choques do petróleo.
Mas ao mesmo tempo reprimia as guerrilhas comunistas no interior. E o então capitão Chávez, enviado a combater os guerrilheiros do partido Bandera Roja, de linha albanesa, veio a simpatizar com sua causa, embora não aprovasse seus métodos e se indignasse com a tortura no Exército e a corrupção visível nos meios militares tanto quanto nos civis.
Segundo o próprio Chávez, sua simpatia pelas esquerdas vinha de antes. Foi inspirado em especial pelo general e líder peruano Juan Velasco Alvarado, que conheceu como cadete ao participar no Peru das comemorações dos 150 anos da Batalha de Ayacucho, na qual Antonio José de Sucre, lugar-tenente de Bolívar, conquistou a vitória final sobre os espanhóis nas Américas. A partir de 1974, Chávez leu avidamente os livros e discursos de Velasco e fez amizade com o filho do coronel e líder panamenho Omar Torrijos, outro militar que promovia o nacionalismo, a reforma agrária e o combate aos privilégios das elites. Em 1977 criou uma organização clandestina, o Exército de Libertação do Povo da Venezuela e começou a buscar contatos com a esquerda civil. Ao se tornar organização cívico-militar, veio a se chamar Movimento Bolivariano Revolucionário 200 ou MBR-200, em homenagem aos 200 anos de Simón Bolívar (nascido em 1783), herói da América Latina e especialmente de Chávez, fascinado por sua vida e pensamento desde a juventude.
Enquanto isso, a guerra entre o Irã e o Iraque, o aumento da produção petrolífera fora da Opep e os conflitos internos do cartel derrubaram o preço da mercadoria e a Venezuela, como muitos outros integrantes da Opep, enfrentou dificuldades sérias.
Em 1988, Pérez candidatou-se de novo e fez campanha atacando o FMI como “uma bomba de nêutrons que mata as pessoas, mas deixa os edifícios de pé” e os funcionários do Banco Mundial como “genocidas a serviço do totalitarismo econômico”. Mas, ao vencer e tomar posse em 2 de fevereiro, de 1989, aceitou de imediato o pacote neoliberal -imposto -pelos EUA e pelo FMI em troca de um empréstimo de 4,5 bilhões de dólares. Isso incluiu a retirada súbita dos subsídios aos combustíveis, com um impacto brutal nos preços dos transportes e no custo de vida.
Não foi o único latino-americano da época a eleger-se com um discurso nacionalista e popular e aderir ao Consenso de Washington após a posse. Carlos Menem, na Argentina, foi outro exemplo notório. Mas a virada de Pérez foi mais -chocante, por sua história e por governar um país mais desigual, onde os desfavorecidos eram ampla maioria. A frustração popular explodiu com uma revolta sem precedentes no país, o Caracazo de 27 de fevereiro. A repressão aos saques e depredações pelo Exército e pela polícia política (a Disip) deixou mais de 2 mil mortos, a grande maioria gente pobre dos chamados cerros, as favelas da periferia de Caracas, que foi sepultada anonimamente e em segredo, em valas comuns.
O evento tornou-se um divisor de águas na história da Venezuela, tanto quanto o Bogotazo, de 1948, na Colômbia. Perderam legitimidade tanto Pérez quanto o sistema político criado pelo chamado Pacto de Punto Fijo, quando, após a queda do ditador Pérez Jiménez, os principais chefes políticos se reuniram na povoação do mesmo nome na casa de Rafael Caldera, líder do democrata-cristão COPEI e acertaram um regime de eleições livres, mas limitadas na prática à alternância de seu partido com a social-democrata ACD e de Caldera, com o banimento dos comunistas.
Foi nesse contexto que Chávez e o MBR-200 tentaram o golpe de fevereiro de 1992. Mobilizaram-se em várias cidades, mas não conseguiram capturar Pérez nem pôr sua mensagem no ar para mobilizar apoio popular. Desistiram após confrontos que deixaram 14 mortos e 130 feridos. Rendido, Chávez falou à tevê e pediu a seus partidários para desistirem “por enquanto”. Tornou-se, porém, um herói. Manifestações populares foram apoiá-lo em frente à prisão. Em novembro, fracassou outra tentativa de golpe militar por simpatizantes de Chávez na Marinha e Aeronáutica que resultou em 172 mortos, 40 dos quais em execuções extrajudiciais de civis e rebeldes rendidos.

Sucessão. Maduro saberá ser um novo Chávez?
Entretanto, Caldera rompeu com a COPEI e aliou-se à oposição de esquerda (inclusive comunistas) na chamada Convergência Nacional, isolou Pérez e o derrubou com umimpeachment por corrupção em maio de 1993. Caldera foi eleito em dezembro, pôs fim a 35 anos de bipartidarismo e cumpriu a promessa de anistiar os militares golpistas. Mas a crise piorou e, em 1997, apelou ao FMI, voltou a retirar o subsídio aos combustíveis e ensaiou a privatização do petróleo, o que desencadeou novos protestos e garantiu a eleição de Chávez pelo recém-fundado Movimento V República, em 1998.
A cobertura por The Economist destacava sua promessa de reduzir o déficit público – grande à época, devido à queda do preço do petróleo a meros 9 dólares por barril, um mínimo histórico – e sugeria que, como o argentino Carlos Menem, o novo presidente venezuelano nomearia um economista “independente” como Domingo Cavallo para tranquilizar os investidores. A partir daí, a revista nunca mais deixou de errar em -suas avaliações sobre Chávez, cuja derrota previu praticamente a cada ano desde 2001. Errou ainda mais o presidente da Câmara de Comércio EUA-Venezuela, Antonio Herrera: descrevia Chávez como “um pragmático flexível que abandonou slogans de campanha e colaboradores inconvenientes com a maior facilidade”.
Como indicava o nome de seu partido, Chávez não se propunha apenas a fazer um governo de centro-esquerda, muito menos usar o populismo para alavancar reformas neoliberais. Queria refundar a república e foi o que fez. Tomou posse em fevereiro. Em abril, 88% dos eleitores aprovaram em referendo a convocação de uma Constituinte, formada em 95% por seus partidários, eleitos em julho.
Em dezembro, a nova Constituição foi aprovada com 72% dos votos. Além de rebatizar o país como República Bolivariana da Venezuela, aboliu o Senado, ampliou os poderes do presidente e das Forças Armadas e criou dois novos poderes independentes além dos três tradicionais: o Eleitoral e o Cidadão. A popularidade de Chávez continuou a aumentar, -tanto -pelas obras sociais promovidas pelas Forças Armadas quanto pela recuperação dos preços do petróleo que favoreceu ao acabar com a tradição venezuelana de burlar as quotas da Opep.
Por outro lado, começou a perder aliados de primeira hora, que o acusaram de “autocrata” e a ganhar a hostilidade da classe média e da Igreja. Mesmo assim, em 2000, foi reeleito sob a nova Constituição com uma maioria ainda mais ampla. Tratou de recuperar o controle estatal do setor de petróleo (minado pela abertura do setor a transnacionais desde Pérez e pela autonomia conferida à PDVSA pelo governo Caldera ao preparar sua privatização) e estabelecer a aliança com Fidel Castro, que lhe forneceu professores, médicos e assistência técnica em troca de petróleo.
A fúria da direita desembocou no fracassado golpe de abril de 2002. Chávez foi capturado e por um dia e meio, o empresário petroquímico Pedro Carmona, presidente da federação das indústrias, agiu como ditador com apoio da mídia, de Washington e do FMI, revogou a Constituição, anunciou a ruptura com Cuba e a Opep e anunciou a privatização do petróleo. Acabou expulso pelas massas populares mobilizadas pela militância chavista e pela ameaça de bombardeio pelos militares fiéis ao presidente, que também recebeu o apoio da maioria dos governos sul-americanos. Os antichavistas não se deram por vencidos. Apostavam no desgaste do governo ante a queda do preço do petróleo por efeito da crise estadunidense e promoveram um locaute nacional e a paralisação da PDVSA de dezembro de 2002 a fevereiro de 2003.
Foi um duplo erro da oposição. O golpe revelou seu perfil intolerante, truculento e elitista e a greve deu a Chávez oportunidade e apoio popular para afastar executivos e sindicalistas hostis, demitir 18 mil (metade dos funcionários) e assumir o controle total da estatal no momento em que os preços do petróleo voltavam a disparar e a economia se recuperava, proporcionando uma enorme ampliação dos programas sociais.
Além disso, a tentativa de golpe queimou as pontes entre o governo e a oposição tradicional. Até então, o -discurso chavista mantinha-se próximo daqueles do peruano Velasco e do panamenho Torrijos (embora mais democrático que ambos), identificando o “bolivarianismo” como uma terceira via nacionalista e popular entre o capitalismo e o socialismo clássico. A partir de 2004, radicalizou-se e em janeiro de 2005, no V Fórum Social Mundial, Chávez adotou a palavra de ordem marxista do “socialismo do século XXI”, proposta pelo sociólogo e professor da Unam Heinz Dieterich Steffan, e formalizou acordo com Cuba na Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (Alba). Em 2007, transformou seu movimento no Partido Socialista Unificado Venezuelano (PSUV).
Em 2004, Chávez derrotou nas urnas, sem dificuldade, a tentativa da oposição de tirá-lo do poder por meio do mecanismo de revogação de mandato criado por sua própria Constituição e, em 2005, a oposição cometeu outro grande erro ao boicotar as eleições parlamentares para tentar deslegitimá-las. Conseguiu apenas dar uma maioria esmagadora ao chavismo e lhe possibilitar aprovar o que quisesse.
O prestígio internacional de Chávez cresceu com a eleição de seu aliado Evo Morales, na Bolívia, em 2005, e de Rafael Correa, no Equador, e Daniel Ortega, na Nicarágua no ano seguinte, que se uniram à Alba e promoveram reformas sociais e constitucionais semelhantes. A rejeição das elites acentuou então sua face mais brutal e racista. Chávez não só foi classificado como “tirano” pela mídia conservadora de todo o continente, como regularmente ameaçado de morte e ofendido como “macaco”, “gorila”, “negro” e “zambo (cafuzo) de m…” nos meios de seu país, assim como Evo foi rejeitado por ser “índio” ou “colla”.
Quanto ao desempenho econômico, a era Chávez é medíocre, mas não desastrosa. O crescimento médio do PIB, desde a sua posse é de 2,75% ao ano, melhor que o do México (2,39%), e um pouco abaixo do Brasil (3,20%), Argentina (3,58%) e Chile (3,97%). Nunca houve um programa de estabilização e a inflação segue na casa dos 20% (era 36% no último ano de Caldera), similar à da Argentina (maquiagem à parte) e acima do resto da região. Mas a melhora dos indicadores sociais é clara: a população atingida pela fome (segundo a FAO) caiu de 20%, em 2002, para 2%, em 2012 e o índice Gini de concentração de renda caiu de 48,65, em 1992, para 39,28, em 2009 (o do Brasil foi de 60,02 para 54,27).

Chávez caminhava para ser um novo Fidel Castro
A exasperação dos conservadores atingiu o auge após a não renovação da concessão para tevê aberta da arqui-inimiga e golpista RCTV (que continua a transmitir a cabo), mas foi fútil. Apesar das periódicas dificuldades econômicas e das previsões de analistas em contrário, Chávez venceu todas as eleições desde 1998, exceto (por margem minúscula) o plebiscito de 2007 sobre a reforma socialista da Constituição. Isso foi parcialmente compensado pela vitória no plebiscito de 2009, que lhe permitiu candidatar-se ao quarto mandato em 2012 e novamente vencer, apesar da oposição do ex-golpista Capriles ao recorrer a uma estratégia mais inteligente, se comparar a Lula e aceitar o discurso social do bolivarianismo.
E o que é o bolivarianismo? Apesar da ira das direitas latino-americanas e das esperanças de parte das esquerdas, não chega a ser socialismo no sentido que Che Guevara dava à palavra. Chávez teve o apoio de um círculo minoritário de empresários, a chamada “boliburguesia” e não parece cogitar de estatização em massa ao estilo stalinista. Latifúndios foram expropriados para a reforma agrária e algumas transnacionais hostis foram nacionalizadas, mas essas medidas só se destacam contra o fundo de extremismo neoliberal que as precedeu. Em outras épocas, teriam sido reconhecidas como reformistas, como foram as de governos nacionalistas da Índia, Egito, Peru e outros países do chamado “terceiro mundo” até os anos 1970. Em nenhum momento o chavismo censurou a imprensa ou rompeu com as práticas da democracia. Acatou sem discutir a derrota da proposta de mais “socialismo”, em 2007, e o ímpeto reformista arrefeceu à espera de condições políticas mais favoráveis.
O que não dá para negar foi seu caráter personalista e supercentralizado. A teimosia de Chávez em decidir sobre praticamente tudo, não designar sucessor, romper com ex-aliados que dele discordavam e conferir poder demais a incompetentes ou corruptos que mostrem fidelidade incondicional prejudicam visivelmente sua popularidade. Nem por isso ele mudou de atitude, mesmo ao saber da gravidade de sua doença. Assinou leis e decretos no leito do hospital e, como se pensasse ser imortal e insubstituível, não cogitou de um afastamento temporário e muito menos ceder a candidatura. Até o gesto simbólico de 10 de dezembro, no qual entregou a espada de Bolívar, símbolo do poder presidencial, a Maduro.
Apesar dos defeitos, Chávez permanecerá como um rosto – talvez não o mais bem-sucedido, mas certamente o mais ruidoso e expressivo – da virada histórica da América Latina deste início do século XXI, na qual as massas populares nativas e mestiças, após cinco séculos de marginalização, começam a conquistar a inclusão econômica e o protagonismo político e as elites a ceder parte do que sempre julgaram ser seu direito de nascença. Não se trata de ideias fundamentalmente novas, mas de dar conteúdo real a uma retórica nacionalista que é moeda corrente, mas sem lastro, desde o tempo de Bolívar – o que se mostra, para os privilegiados, muito mais assustador.
Por suas origens e pela coerência, embora rude e teimosa (e nem sempre perspicaz), com os próprios ideais declarados, o venezuelano conquistou um papel simbólico que líderes mais pragmáticos e ambíguos não podem ocupar inteiramente, mesmo se governam países maiores com índices de popularidade ainda mais altos. Seus esforços de cooperação e articulação ideológica internacional contra o imperialismo ganharam uma projeção que ultrapassa o continente: as esquerdas francesas e gregas, por exemplo, admitem sua influência. Com um rosto com o qual o povo pode se identificar, desafiou as elites e as potências com uma voz que o cidadão comum pode entender e esforçou-se por cumprir suas promessas e encorajar as massas a se apossar de fato da pátria que sempre lhe disseram ser sua, sem que isso saísse da teoria. É bem possível que, como outros líderes do passado, inspire gerações – e se falhar nisso, terá sido mais pela relutância em fortalecer discípulos e sucessores com luz própria do que por quaisquer outros erros.
*Reportagem publicada por CartaCapital em dezembro de 2012

quinta-feira, 7 de março de 2013

O que é arroz parboilizado?

O que é arroz parboilizado? 
A palavra parboilizado teve origem na adaptação do termo inglês parboiled, proveniente da aglutinação de partial + boiled, ou seja, "parcialmente fervido".
Não se trata de arroz parafinado, ou colado, como muitos pensam. O processo de parboilização baseia-se no tratamento hidrotérmico a que é submetido o arroz em casca, pela ação tão somente da água e do calor, sem qualquer agente químico.
A parboilização é realizada através de três operações básicas:
1. Encharcamento: o arroz em casca é colocado em tanques com água quente por algumas horas. Neste processo, as vitaminas e sais minerais que se encontram na película e germe, penetram no grão à medida que este absorve a água.
2. Gelatinização: Processo Autoclave - o arroz úmido é submetido a uma temperatura mais elevada sob pressão de vapor, ocorrendo uma alteração na estrutura do amido. Nesta etapa, o grão fica mais compacto e as vitaminas e sais minerais são fixados em seu interior.
3. Secagem: O arroz é secado para posterior descascamento, polimento e seleção.
Suas vantagens são:
- Rico em vitaminas e sais minerais, devido ao processo de parboilização;
- Quando cozido, fica sempre soltinho;
- Rende mais na panela;
- Requer menos óleo no cozimento;
- Pode ser reaquecido diversas vezes, mantendo suas propriedades;
- Alto grau de higiene no processo de industrialização;
- Conserva-se por mais tempo;
- Não usa produtos químicos.
Detalhe: O Brasil detém a tecnologia de parboilização mais avançada do mundo!
 Fonte: Embrapa

segunda-feira, 4 de março de 2013

Mulheres do Maranhão são presas no México suspeitas de fazer parte de seita religiosa que praticava crimes de abuso sexual

A mãe

  Mulheres maranhenses são presas no México suspeitas de pertencer a uma seita religiosa que praticava crimes de abuso sexual e de tráfico de pessoas. A mãe das irmãs mora em Amarante do Maranhão, a 115 km de Imperatriz e soube da notícia da prisão por uma outra mulher, que se diz esposa do suspeito de ser o líder da seita, o espanhol Ignácio Gonzales.
Maria Rosilene perdeu o contato com as duas filhas, que estão morando no México, e acabou sabendo que Roseane Ribeiro Alves, de 28 anos, e a irmã, Camila Ribeiro Alves, de 19 anos, estão presas.
Roseane Ribeiro Alves e o espanhol Ignácio Gonzales.
Roseane é mulher do espanhol Ignacio Gon- zales e Camila mantinha um relacionamento a- moroso com o amigo dele, Tito Mernissi. Eles pa- ssaram uma temporada no Brasil, quando foram apresentados à família de Roseane e Camila e os ca- sais foram morar no Mé- xico há quase dois anos.
A mãe de Roseane e Camila recebeu a notícia da prisão das filhas por telefone. Uma mulher, identificada apenas como Paulina, que segundo ela, também vive como esposa de Gonzalez, foi quem comunicou à família.
Gonzales e Tito teriam sido presos dia 25 de janeiro sob suspeita de abuso sexual e tráfico de pessoas. Gonzales é apontado como líder da seita Defensores de Cristo e dizia ser a reencarnação de Jesus Cristo, mas a favor da poligamia. Gonzalez oferecia cursos de bioprogramação e poderes mentais em um site próprio e prometia milagres a quem declarasse amor por Cristo, o que seria uma forma de conseguir seguidores e mulheres para a prostituição.
A irmã Camila Ribeiro Alves
  A assessora jurídica do município de Amarante, Maiara Nas- cimento acredita que Ro- seane e Camila foram pre- sas com os maridos, por es- tarem morando no Mé- xico de forma ilegal. Ignácio Gonzales morou por mais de um ano em Amarante na companhia de Roseane, longe de qual- quer suspeita. Ele não ti- nha um emprego fixo na ci- dade e dizia para a família dela que trabalhava ofertando cursos à distância, pela internet.
A assessora jurídica  entrou em contato com a embaixada brasileira no México e confirmou, também, a prisão das jovens, mas ainda aguarda esclarecimentos. A mãe espera ansiosa por novas informações, pra saber, também, dos dois netos, filhos de Roseane e Camila. Fonte : Fronte G1