sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A Criação

A CRIAÇÃO
Ruy Freitas

A tradição judaico-cristã-muçulmana localiza num tempo recente e finito a criação, a partir da intervenção direta de Deus. Santo Agostinho aceita a data aproximada de 5000 anos antes de Cristo. Outro aspecto é que Deus teria criado o universo pronto e completo. A Terra seria seu centro e único repositório da vida. Todo o restante do infinito seria algo estéril, talvez apenas para a contemplação do homem, ponto mais alto da criação.

Acreditavam os antigos que a abóbada celeste seria algo sólido (daí firmamento). Vem de tal equívoco a descrição no livro Gênesis (Gên 1:6. “Deus disse: ‘Haja um firmamento no meio das águas e que ele separe as águas das águas’, e assim se fez”.). Outro dos grandes equívocos, que perdurou até o século XVI, foi a crença na imobilidade da Terra, em cujo redor giraria o universo, inclusive o sol. Em Josué 10:13, está escrito que “o sol se deteve no meio do céu, e a lua parou, até que o povo se vingou de seus inimigos.” Galileu, que era concordava com Copérnico, quanto ao heliocentrismo, foi obrigado a retratar-se perante a Igreja Católica, mas continuava afirmando, referindo-se ao globo terrestre, que eppur si muove.

Mas, desde a antigüidade, houve a dúvida a respeito de ter ou não havido um momentum da criação. Com um mínimo de raciocínio, sempre nos assaltou a dúvida a respeito do que Deus estaria fazendo antes de criar o universo. Aristóteles acreditava que o mundo e a raça humana sempre tinham existido e que, periodicamente, dilúvios e outros desastres devolviam a humanidade ao estado de barbárie. Assim, não teria havido criação, mas sim um número incomensurável de gerações de civilizações.

Mas tudo isso provém de uma visão ainda extremamente limitada do universo, que atribuía ao insignificante planeta Terra uma importância absurdamente grande. É interessante notar que, mesmo no século XX, nossa capacidade de abstração a esse respeito ainda era tão limitada que mesmo os principais autores de ficção científica, só a partir dos anos 1950, conseguiram “afastar-se” do minúsculo punhado de poeira que é nosso sistema solar.

Sabemos hoje que a nossa Via Láctea, mesmo contendo 200 bilhões de estrelas (a codificação espírita fala de 50 milhões), é apenas uma no meio de uma quantidade inimaginável de galáxias no infinito. Por outro lado, já em 1929, Edwin Hubble havia observado que, para onde quer que se “olhasse”, as galáxias estão se afastando rapidamente da nossa (ou umas das outras). Esta foi a descoberta que trouxe para o domínio da ciência a questão do começo do universo. Tentar imaginar a distância percorrida pelas galáxias que se distanciam é mais do que estonteante.  Dentro da nossa Via Láctea, a estrela mais próxima de nós está a 75,7 trilhões de quilômetros.

Ora, se o universo está em expansão, quer dizer que, recuando no tempo algo como vinte bilhões de anos (mera abstração, porque ano é uma medida terrena e então a Terra ainda não existia), encontraremos o universo compacto, infinitamente pequeno e infinitamente denso. Este seria o momento do Big Bang. Já há cientistas que admitem ciclos de expansão e contração do universo, numa repetição eterna a cada vinte ou sabe-se lá quantos bilhões de “anos”. De qualquer forma, cientistas da física falam do Big Bang como o princípio do universo e do Big Crunch como seu fim. O que já se sabe é que, mesmo estando o universo em expansão, existem os buracos negros, que atraem toda a matéria em redor de si, inclusive a luz, que não consegue escapar-lhe à inimaginável força gravitacional.

É claro que, quando falamos de tais medidas, só podemos abstrair. Li não me lembro onde que um professor de física assim respondeu a um aluno que insistia quanto a um conceito de eternidade: “Imagine que a Terra seja uma esfera de bronze e que uma andorinha passe voando, a cada dois mil anos, e roce a sua superfície com uma das asas. Quando o globo terrestre estiver totalmente desintegrado pela fricção das penas da andorinha, estará começando a eternidade.”

Mas, falando de tempo e de espaço, convém lembrar que, antes da teoria geral da relatividade, de Albert Einstein, as coisas nos pareciam mais simples. Tempo e espaço eram consideradas dimensões absolutas. O universo nos parecia determinístico e de mecânica totalmente explicada pela gravitação dos corpos. Aí passamos a saber que espaço e tempo são quantidades dinâmicas e não apenas afetam, mas também são afetados por tudo o que ocorre no universo. Assim, diz-nos Stephen Hawkins, que “não se pode falar de eventos no universo sem as noções de espaço e tempo” (...) e acrescenta que, “na relatividade geral, torna-se sem sentido falar de espaço e tempo fora dos limites do universo.”

Também foi no início do século XX que se descobriu que o átomo (do grego a + tomos = sem divisão) é afinal de contas composto de partículas. Atualmente, além dos “tradicionais” Elétron, Próton e Nêutron, já são conhecidos Quark, Pósitron, Antipróton,
Antinêutron, Fóton, Gráviton, Méson, Híperon e Neutrino. Afinal de contas, quais são as partículas elementares?

A mecânica quântica (a partir dos estudos de Max Planck) nos diz que todas as partículas são na verdade ondas. Assim, há partículas que não podem ser identificadas, mas é sabido que existem, porque têm efeitos mensuráveis, a partir do spin, propriedade comum a todas as partículas, porém variável de partícula para partícula.

Só a título de informação, já se sabe também que toda partícula que constitui a matéria tem uma partícula complementar de antimatéria, com a mesma massa e carga elétrica oposta. No entanto, o universo observável é claramente feito de matéria, e não de antimatéria. Com efeito, uma partícula e uma anti-partícula em contato se autodestruiriam mutuamente, numa liberação incomensurável de energia.

O fluido cósmico é descrito no livro dos espíritos como uma matéria primeva, o que de certa forma antecipa a física quântica. Contudo, a descrição na Gênese, na Codificação Espírita, fala de uma matéria cósmica primitiva, esparsa em todo o infinito, de onde teriam, através de um processo de condensação, sido formados os diversos corpos celestes. Também não parece coincidir com os avanços da física moderna a idéia de espaço e tempo como dimensões absolutas. Por outro lado, ali se afirma que “uma única lei, primordial e geral, foi outorgada ao universo, para assegurar-lhe eternamente a estabilidade”, o que conflita com a teoria dos ciclos de expansão e contração do universo. De qualquer forma, o espírito que ditou as explicações ao codificador salientou que, embora tendo acesso a mais informações do que a população encarnada de então, também se reconhecia ignorante ante a grandiosidade do tema.

Na Gênese espírita, VI, 14, está dito que “existindo, por sua natureza, desde a eternidade, Deus criou desde toda eternidade e não poderia ser de outro modo, visto que, por mais longíngua que seja a época a que recuemos, pela imaginação, os supostos limites da criação, haverá sempre, além desse limite, uma eternidade.”

Finalmente, lembremos que está dito, na codificação espírita, que: “o Espiritismo e a Ciência se completam reciprocamente”; (...) ao Espiritismo, sem a Ciência, faltariam apoio e comprovação. (...) “Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.”
 

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