segunda-feira, 7 de março de 2016

Rede da legalidade democrática envolveu 500 mil pessoas em 1.500 cidades

A exemplo do papel das rádios em 1961, então sob a liderança de Leonel Brizola, 55 anos depois a rede contemporânea de informação e comunicação uniu o Brasil, quiçá o mundo, em defesa da democracia
por Marcio Pochmann, para a RBA publicado 06/03/2016 10:46, última modificação 06/03/2016 13:49
MUSEU DA COMUNICAÇÃO HIPÓLITO JOSÉ DA COSTA
Resistência
Em 1961, resistência popular impulsionada por Brizola barrou golpe desencadeado por renúncia de Jânio Quadros
Em agosto de 1961, portanto, há quase 55 anos, o Brasil conheceu inédita campanha da legalidade em defesa da ordem jurídica vigente durante a primeira experiência de democracia ampliada a partir de 1945. Naquela oportunidade, sete anos depois de as mesmas forças do atraso terem sido derrotadas em sua tentativa golpista de romper com a ordem democrática contra o governo do presidente eleito Getúlio Vargas (1950-1954), emergiu rápida e inesperada mobilização civil e militar na defesa da posse do vice-presidente João Goulart diante da renúncia do então presidente Jânio Quadros.
A campanha da legalidade se formou em torno da Rádio Guaíba de Porto Alegre que passou a funcionar diretamente do Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, acompanhada pela retransmissão de rádios como a Brasil Central, também instalada no Palácio das Esmeraldas, sede do Governo de Goiás, a Rádio Clube de Blumenau, em Santa Catarina, a Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro. Por meio das ondas curtas, a campanha da legalidade integrou o país e mobilizou a população, evitando o golpe que se encontrava em marcha.
Sob a liderança do governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, a defesa da posse de João Goulart foi mantida, embora dias tensos tenham sido vividos com muita intensidade. Como parcela das forças do atraso, instrumentalizados por militares aliados com os Estados Unidos, somente aceitava a democracia desde que os eleitos fossem os conservadores, impediam a posse do progressista Jango.
Para romper com o golpe em marcha, o governador Brizola convocou a população que respondeu positivamente, mobilizando e ocupando as ruas em várias cidades para a defesa da democracia. A reação imediata foi a tentativa de bombardear a sede do governo gaúcho que em resposta organizou a Polícia Militar e distribui armas à população.
Guardada a devida proporção, percebe-se novamente o curso do golpe contra a ordem jurídica, que esvazia o Estado de direito nesta segunda experiência de democracia ampliada iniciada em 1985. O sequestro do ex-presidente Lula no dia 4 de março pela Polícia Federal, sob orientação de juiz federal, comprovou que as liberdades democráticas garantidas pela Constituição de 1988 estão em xeque.
No mesmo dia e em reação ao arbítrio do autoritarismo fascista emergente, o Brasil se insurgiu novamente. Uma nova campanha pela legalidade se estabeleceu, agora sob as asas das novas tecnologias de informação e comunicação que entraram em sintonia convergente com a posição de liderança do ex-presidente Lula.
A rede de informação e comunicação pela internet uniu o Brasil, quiçá o mundo, em defesa da democracia. Somente no dia 4 de março houve atos de solidariedade e luta contra o arbítrio das forças do atraso em quase 1.500 mil cidades do país e a participação de cerca de 500 mil pessoas, bem como a adesão de cerca de 2 mil novas filiações ao Partido dos Trabalhadores, sobretudo de jovens.
Este movimento imediato e espontâneo impôs limites, mas não barrou em definitivo, a marcha do golpe à legalidade democrática. Outros eventos virão, uma vez que os perdedores das eleições presidenciais em 2014 não aceitam esperar até 2018 para enfrentar nas urnas o democrático destino eleitoral. Por isso, a nova campanha pela legalidade apenas começou, com novos passos a serem engendrados absolutamente necessários para dar continuidade à jovem democracia brasileira.
Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, ambos da Universidade Estadual de Campinas.
Brizola 1961Mais história na Revista do Brasil: Rede da Legalidade liderada por Brizola há 50 anos defendeu a democracia e o respeito às regras do jogo








domingo, 6 de março de 2016

Chico Buarque: “A música brasileira não exclui, assimila”

No Rio de Janeiro, revela a história de sua família e sua oposição à ditadura

Chico Buarque, "um sujeito magro e tímido, simples e sorridente". / LUIZ MAXIMIANO
Há apenas uma coisa mais difícil de encontrar do que alguém que fale mal de Chico Buarque no Brasil: uma mulher que não seja apaixonada por ele. Olhos fascinantes de uma cor estranha entre verde, azul e cinza são uma lenda nacional. Suas canções, por si só, já fazem parte da história, da herança e da identidade diária de um povo. Por isso, é um pouco intimidante se aproximar do edifício de um bairro nobre do Rio de Janeiro, onde o cantor mora, e subir no elevador imaginando o que te espera atrás da porta. O que se encontra é um sujeito magro e tímido, simples e sorridente, que esperava sentado sozinho em uma cadeira e assim que vê o recém-chegado o convida para um café que acabou de fazer. A sala de estar de Chico, aberta em três paredes de vidro com vista para várias praias do Rio, goza de uma paisagem deslumbrante nesta bela tarde ensolarada e iluminada de fim de verão. Ao fundo, em um canto, há um violão e um piano, ao lado de uma enorme foto na qual Chico aparece ao lado de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, dois dos lendários criadores da bossa nova.
Sobre uma mesa repousao novo romance do artista, O Irmão Alemão (Companhia das Letras). Nele, Chico (1944) narra seu choque ao saber, já adulto e de forma inesperada, que seu pai, o famoso historiador Sérgio Buarque de Hollanda, teve um filho na Alemanha, em 1930, quando era correspondente em Berlim para um jornal brasileiro. Nem Chico sabia até então que tinha um irmão na Alemanha, nem esse irmão alemão jamais soube que era parente de um dos cantores mais famosos do Brasil já que morreu, em 1981, ignorando quase tudo sobre seu pai biológico. O escritor disfarça um pouco os fatos, mas nas páginas do romance desfila a São Paulo dos anos sessenta e setenta, menos gigante e desumana do que a atual, e sua própria juventude um pouco desregrada. Também emerge a ditadura sinistra, à qual Chico se opôs desde o início e que o levou a buscar o exílio, em 1969. Mas, acima de tudo, revela a casa da família, repleta de cima a baixo com livros de seu progenitor. Era um pai amável, mas distante, carinhoso, mas distraído, e um pouco ausente, sempre imerso em leituras intermináveis e envolto em uma nuvem de fumaça de um cigarro continuamente aceso. No romance, o protagonista, um sósia do próprio Chico, enquanto folheia um dos livros da imensa biblioteca do pai, nota um envelope perdido entre as páginas que guarda uma velha carta em alemão, que lhe dá pistas sobre aquele irmão que nunca conheceu. Na verdade, a descoberta não foi tão literária.
Pergunta. Quando soube que tinha um irmão?

Com 20 anos, você tem um milhão de ideias para compor. Depois, tudo torna-se mais insípido
Resposta. Soube exatamente em 1967, quando tinha 23 anos. Lembro-me muito bem, inclusive há uma foto desse dia. Vinicius de Moraes, Tom Jobim e eu fomos visitar o poeta Manuel Bandeira, que já estava muito velhinho, em sua casa no Rio. E, então, falando disso e daquilo, Bandeira perguntou por meu pai, de quem era muito amigo: "Como o Sérgio está? Ah, quanto tempo não o vejo, vivemos tantas coisas juntos... Foi para a Alemanha, teve aquele filho...”. E aí soltou isso.
P. O que você fez?
R. Então lhe disse: "Mas que filho?". E aí o Vinicius respondeu: "Mas você não sabia disso, do filho?". E eu: "Não". Eu não sabia nada. Era um segredo de família. Depois daquele dia, falei com meus irmãos e com meu pai. Falei com o meu pai, sim, mas sempre havia uma barreira na hora de perguntar a ele. Escrevendo este novo livro me questionei por que não perguntei mais. Mas havia um receio, um impedimento. Não é que meu pai tenha me proibido de perguntar sobre a questão do filho, mas me sentia um pouco desconfortável sobre o assunto. Em relação à minha mãe e ao meu pai.


O cantor e escritor Chico Buarque. / LUIZ MAXIMIANO
P. E isso se tornou uma obsessão ao longo dos anos? Porque você continuou investigando, principalmente após a morte de seu pai, em 1982. Até mesmo a editora que iria publicar o livro, a Companhia das Letras, contratou dois detetives para ajudá-lo na investigação.
R. Não, não, não eram detetives [risos]. Eram historiadores. Um deles era um brasileiro que, por acaso, estava na Alemanha quando comecei a escrever o livro, há três anos. É verdade que foi contratado pela editora. Ele conhecia um documentalista alemão especializado em imigração alemã no estado de Santa Catarina. Eles descobriram que meu irmão, na verdade, se chamava Sérgio Günther e havia sido adotado por uma família quando pequeno. A verdade é que, quando comecei a escrever o livro, tinha muito pouca informação. Mas nem precisava. Nem sequer pretendia encontrá-lo. A história não ia por aí. Mas aconteceu que, enquanto escrevia, um dos meus irmãos, que vive no apartamento da minha mãe, que morreu há cinco anos, encontrou em uma gaveta alguns documentos que tinham dados para puxar o fio. Eu tinha 50 páginas do livro, que deixei como estavam. Mas a realidade se intrometeu na redação para sempre.
P. A história que o senhor narra no romance é boa, mas a realidade na qual se apoia também.
R. Sim, deveria escrever outro livro, porque, no final, o romance acaba competindo com a história real, que é muito impressionante.
É verdade. Através desses documentos, Chico tomou conhecimento de duas coisas: que seu pai havia solicitado às autoridades alemãs que enviassem seu filho fornecendo a documentação necessária ou, pelo menos, conseguir que ele recebesse uma pensão que prometia enviar. A segunda é que a mãe biológica tinha decidido, em meio àconvulsão enfrentada pela Alemanha da época, entregar o menino ao Estado para que fosse adotado. Uma carta enviada a seu pai, em 1934, pela Secretaria da Infância e Juventude de Berlim (e que terminava com um rigoroso "Heil Hitler!") pedia a Sérgio Buarque de Hollanda que, para que seu filho fosse adotado pela família alemã Günther, que estava interessada na criança, deveria encaminhar o mais rapidamente possível certificados que comprovassem a religião católica do pai. Chico, ao ler a carta, imaginou, com assombro e espanto, que as autoridades alemãs exigiam isso para que ficasse evidente que o pequeno Sérgio não tinha sangue judeu nas veias. Caso contrário, em vez de uma família qualquer, ele poderia ter sido transferido para um campo de concentração. Os historiadores finalmente conseguiram, em 2013, identificar o irmão, Sérgio Günther, que morreu em 1981, e localizar sua ex-esposa, filha e neta. Poucos meses depois, Chico viajava a Berlim para conhecer a outra parte de sua família e saber mais sobre seu meio-irmão.
P. E soube que seu irmão tinha sido um cantor...
R. Sim, ficou bem conhecido na Alemanha Oriental como cantor e apresentador de televisão. Quando soube que tinha sido cantor, senti uma emoção forte. E sabe, quando ouvi um de seus álbuns percebi que tinha a voz grave do meu pai. Porque meu pai gostava muito de cantar. E soava igual.
P. Tinham mais coisas em comum?
R. Ambos morreram de câncer de pulmão. Meu pai fumava muito. Quando conheci a família do meu irmão, sua viúva (uma de suas viúvas, porque ele se casou mais de uma vez) me disse que Sérgio Günther arrancava o filtro dos cigarros que fumava. Exatamente como meu pai. Coisas assim que arrepiam. Todo mundo lá me disse que minha música A Banda havia sido traduzida ao alemão e era bem conhecida na Alemanha Oriental, com uma letra muito diferente e um pouco absurda, na verdade. Portanto, não é estranho que meu irmão tenha realmente me ouvido cantar. É uma maneira de ter me conhecido um pouco, certo?

Demorei para descobrir que tinha um irmão. Era um segredo de família 
P. Alguma vez teve curiosidade de saber quem era seu pai biológico?
R. Sua viúva me disse que, em um determinado momento, sim, que perguntou na Embaixada brasileira, mas na época a Alemanha Oriental era um país muito fechado, com poucas possibilidades de conseguir informação.
P. No livro, o protagonista, parecido com o senhor, rouba carros para se divertir. O senhor fazia a mesma coisa?
R. Sim. Ia com um grupo de adolescentes do bairro, eram os tempos de James Dean, rock and roll, de uma juventude um pouco rebelde. Por isso que nosso esporte era roubar carros, circular com eles pela cidade e depois deixá-los no fim do mundo. Fui para a cadeia por isso uma vez. A polícia me deu uma surra. Bom, mas isso já havia contado. Eu mesmo disse antes que descobrissem. Tive sorte porque no dia que me prenderam meus pais não estavam em casa, estavam viajando, e foi minha irmã que me buscou. Eu então era bastante..., enfim, dei muito trabalho para minha família.
P. Ao mesmo tempo, era muito bom leitor, certo?
R. Sim, é verdade. Foi também uma maneira de me aproximar de meu pai, que passou a vida entre livros. Eu diria que, antes de ser músico, queria ser escritor. Até que a música apareceu na minha vida e embarquei nela. Mas não abandonei a ideia de me dedicar à literatura. Nos anos setenta, publiquei meu primeiro romance, nos oitenta, o segundo. Desde então alterno as duas coisas. Quando faço uma, não faço a outra, porque me consomem muito. Quando estou escrevendo nem sequer ouço música.
P. Mas são atividades assim tão diferentes?
R. Para mim, sim. Muito. E ainda assim minha escrita é muito influenciada por minha música. Talvez algo se perca nas traduções, mas meus textos tentam carregar algum ritmo musical. Além disso, tenho que alternar as duas coisas porque, pelo menos no Brasil, é muito difícil para um escritor viver apenas de literatura. Os escritores trabalham como funcionários públicos, professores, jornalistas... E tudo isso está tão longe da literatura quanto da música. O fato de ser jornalista, por exemplo, não lhe dá a habilidade de escrever literatura, acredito.
P. Comenta-se que cada vez escreve mais e compõe menos.
R. Componho menos do que aos 20. É normal. A música popular é mais uma arte da juventude, com o tempo você vai perdendo, não sei, não o interesse, mas ela já não flui com a abundância daqueles primeiros anos. Tenho que me esforçar mais, procurar mais, é mais difícil. No começo você tem um milhão de ideias, tudo em torno serve para fazer uma canção. Depois vai ficando mais insípido, menos inspirador.
P. Ainda acredita que o melhor de um show é quando acaba?
R. [Risos] Eu realmente não gosto muito de fazer shows não, mas tenho de fazer. Quando lanço um novo disco, me dá vontade de sair por aí e cantar em público. Além disso, com isso depois posso passar dois anos escrevendo. Caso contrário, iria à falência.
P. Por que a música popular brasileira é tão conhecida e a literatura não?
R. Pode ser porque seja pior, mas acho que não. É verdade, por exemplo, que a Argentina é um povo mais literário do que o brasileiro. E os escritores brasileiros também jogam com uma desvantagem, porque o português é mais desconhecido. E a riqueza musical brasileira é facilmente exportável, não precisa de tradução.
P. Por outro lado, por que a música brasileira é tão aceita, tão apreciada?
R. Porque, principalmente depois da bossa nova, tem a influência negra, é filha do samba, mas com um toque de jazz, um toque harmônico. E também tem influência dos grandes compositores da música clássica. Veja: Tom Jobim, nosso grande mestre, era um conhecedor profundo de Chopin e Debussy, dos impressionistas, entre muitos outros. E tudo isso está em nossa música, misturado, junto com os boleros cubanos e os ritmos mexicanos. O Brasil não exclui, assimila. O resultado foi complexo, rico e único.
P. Como era esse mundo? Como era conviver com Jobim, Vinicius?
R. Ah! Eles... eram acima de tudo grandes amigos. Olhe aquela foto, estou com os dois. Eu realmente comecei a me emocionar de verdade com a música, a decidir fazer canções a sério depois da cançãoChega de Saudadecomposta por Tom Jobim e Vinicius e interpretada por João Gilberto. Eu os tinha em um altar. Já conhecia Vinicius porque era amigo do meu pai, mas, para mim, era como falar com um monumento. Por isso, a primeira vez que vim ao Rio para conversar com Tom Jobim, imagine, era um sonho. Com o tempo se tornaram meus amigos, meus parceiros, fiz muitas canções com eles, fui aceito nesse seleto grupo da música popular brasileira.
P. Foi Tom Jobim que disse que o Brasil não era um país para amadores, correto?
R. Sim, e assino embaixo. É um país único, fruto da colonização portuguesa, com emigrantes de todo o mundo, italianos, alemães, árabes, japoneses, com a marca dos escravos trazidos à força... E com origens indígenas antes disso tudo. Tudo isso está presente agora. Em São Paulo, sem ir muito longe, você pode procurar nomes indígenas em muitas ruas. Essas circunstâncias criam um país único.
P. O senhor sempre teve uma posição política clara e explícita. Se opôs à ditadura e apoiou Lula e Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores.
R. Sempre me perguntam quando há eleições. Eu tomo partido e não tenho qualquer problema em declarar isso. Sempre apoiei o PT, agora a Dilma Rousseff e antes o Lula. Apesar de não ser membro do partido, de ter minhas desavenças e de votar em outros candidatos e outros partidos em eleições locais. Mas sempre soube que o problema deste país é a miséria, a desigualdade. O PT não resolveu tudo, mas conseguiu atenuar. Isso é inegável. O PT tem melhorado as condições de vida da população mais pobre.
P. E como o senhor vê a situação atual?
R. Muito confusa, não há nenhuma maneira de saber o que vai acontecer nos próximos anos. A crise econômica é forte. É preciso tomar certas medidas impopulares. Ao mesmo tempo, a oposição é muito dura. E depois há uma onda de manifestações nas ruas que, na minha opinião, não têm um objetivo concreto ou claro. Entre aqueles que saem às ruas há de tudo, incluindo loucos pedindo um golpe militar. Outros querem acabar com o Partido dos Trabalhadores, querem enfraquecer o Governo para que, em 2018, o PT chegue desgastado nas eleições. O alvo não é a Dilma, mas o Lula;têm medo que Lula volte a se candidatar.
P. E, para terminar: como se vive sabendo que é o homem mais desejado do país?
R. Isso já faz muito tempo.
P. E continuam dizendo.
R. Não sei nada sobre isso. Sou tímido, um cidadão sério, um homem de família. Inventam histórias, criam lendas que não têm muito a ver com a realidade. Não sou o sedutor que comentam.
A entrevista termina e o cantor tenta chamar um táxi para o jornalista através de um aplicativo do celular. Mas não consegue. "Minha neta sabe, mas eu não aprendo", explica. Observa o bonito entardecer e diz: "Eu o acompanho." Coloca shorts, um boné que esconde o rosto e caminha, junto ao jornalista, rua abaixo pelo Rio de Janeiro, falando dos pais, dos livros, das famílias e da música.

Chico Buarque

Rio de Janeiro, 1944. Ele é filho do conhecido historiador Sérgio Buarque de Hollanda e da pintora e pianista Maria Amélia Cesário Alvim. Começou a estudar arquitetura, mas abandonou o curso depois de dois anos, quando sua carreira como compositor e intérprete começou a deslanchar. Em 1966, conseguiu seu primeiro grande sucesso com a canção A Banda. Desde então, não parou de compor obras-primas como Apesar de Você, Construção, O Que Será (À Flor da Pele) e Cálice. É considerado um dos grandes nomes da música popular brasileira, ao lado de Tom Jobim e João Gilberto, entre outros. Em paralelo, desenvolveu sua carreira como escritor e dramaturgo. O Irmão Alemão, publicado pela Companhia das Letras, é seu quinto romance.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Quando Cabrinha desligava o motor da luz


Quando Cabrinha desligava o motor da luz
A lembrança mais nítida de minha infância no sertão é que os dias eram extremamente luminosos e as noites recebiam uma espessa cobertura de breu. O sol tinha uma luminosidade ofuscante num céu cujo azul pálido, desmaiado, quase transparente, nunca vi reproduzido em parte nenhuma do mundo. Era mais fácil conviver com o calor abrasador e a secura do ar que com aquele brilho humilhante. De noite, quando eu era menino, a cidade ainda não tinha eletricidade de hidrelétrica, a luz de Paulo Afonso, como se dizia. Foi uma grande conquista, talvez a maior de todas, a ventura de girar o interruptor e ver a lâmpada acender, mas ainda mais ter uma geladeira, uma vitrola ou um simples rádio elétrico funcionando a qualquer hora. Até então, tínhamos de nos contentar com o “motor da luz” – um gerador a Diesel que o maquinista Cabrinha acionava às 18 horas e desligava às21. O desligamento era precedido de três sinais: um apagão rápido, depois dois, três, antes de, enfim, vir a treva.
José de Anchieta Pinto, com o motorista Zé Campina, exibindo orgulhoso o “jandaia”, vulgo “gemecê”, caminhão Chevrolet 1958
Meu pai, Anchieta Pinto, era caminhoneiro e me lembro bem do orgulho com que se exibia ao se deixar fotografar na frente de um Chevrolet (dizia-se “gemecê”) , que ele chamava de Jandaia. Viajava muito para o “Sul” – Rio e São Paulo – e mamãe, Mundica Ferreira Pinto, ficava sozinha conosco: éramos quatro, depois cinco, depois seis, sete, afinal. Assim que Cabrinha acionava o motor, o pároco, o cônego Antônio Anacleto, também ligava o alto-falante da matriz de Jesus, Maria, José. A característica era a Ave Maria, de Gounod. Em seguida, com sua voz característica e gozada, o vigário recitava um trecho em homenagem à Virgem Maria. Afinal, era a Hora do Ângelus. Mas era também a hora do acerto de contas dele com a comunidade. Era algo mais ou menos assim: “Seis horas, hora do Ângelus, hora da Ave Maria, hora de todos nós rezarmos contritos a Deus e pedirmos a intercessão da mãe de Jesus Cristo, Nosso Senhor, para nos redimir de nossos pecados. Hora de você, Cabrinha, cabra safado, vir consertar a difusora da igreja, pois eu já lhe paguei pelo serviço que você não fez”
Na verdade, Cabrinha era apenas o maquinista: ligava e desligava o motor. Quem cuidava dele para evitar os blecautes, dos quais, confesso, não me lembro, era o gênio local da mecânica, Zéu Fernandes, um mago dos motores e proprietário do único automóvel do qual me lembro bem àquela época: a “fobica” de Zéu. Nele fiz meus primeiros passeios de carro na estrada poeirenta e esburacada ligando a Fazenda Rio do Peixe, onde nasci, e a cidadezinha de Belém do Arrojado, vulgo Uiraúna, a légua e meia, nove quilômetros de distância, como minha mãe registrou no “Álbum do Bebê”.
Zéu Fernandes, o mago da mecânica e dono do primeiro automóvel de Uiraúna, a “fobica”, posa ao lado do motor da luz, que o maquinista Cabrinha acionava diariamente em Uiraúna
Na primeira infância, já morando na “rua”, como se dizia, quando o eletricista cobrado pelo padre desligava a luz e a treva descia, com meu pai viajando, íamos tomar a fresca na calçada da Rua Nova e mamãe, que tinha estudado na Escola Normal de Cajazeiras, dizia de cor versos de Castro Alves. Até hoje posso citar de cor trechos do Navio Negreiro: “existe um povo que a bandeira empresta pra cobrir tanta infâmia e cobardia e deixa-a transformar-se nesta festa em manto impuro de bacante fria. Meu Deus, meu Deus! Mas que bandeira é esta que impudente na gávea tripudia? Auriverde pendão de minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança, estandarte que a luz do sol encerra e as promessas divinas da esperança, tu, que após a guerra foste hasteada dos heróis na lança, antes te houvessem roto na batalha que servires a um povo de mortalha”. Lindo, não? E que ritmo maravilhoso! Atribuo meu ouvido de tuberculoso para a palavra a essas noites escuras em que a brisa não vinha, mas o calor era refrescado pelos alíseos do mar da Bahia nos ritmos dos versos de Antônio Frederico, que morreu tão moço, coitados de nós, que perdemos tanta poesia! Considero “que a brisa do Brasil beija e balança” o mais lindo verso da língua portuguesa, que me perdoem Camões e Pessoa! E até hoje acho que o baiano foi o maior poeta brasileiro de todos os tempos. Lembro-me também que mamãe dizia O livro e a América – “criado pelas grandezas, pra crescer, criar subir” etc. Não há espaço para citar o poema todo.Também teria de recorrer ao livro: não me lembro dele como do Navio Negreiro. Mas me recordo ainda bem que achava muito engraçado quando ela recitava: “lá brada César morrendo”. E a cena trágica do assassínio do imperador romano lembrada pelo poeta era substituída na minha memória infantil pelo louco Labrada, que era fanático por automóveis e andava a pé como se estivesse dirigindo um, reproduzindo com a boca, a língua e a garganta os ruídos do motor e torcendo os braços como se dirigisse ou passasse marcha. Labrada era o contínuo do cabaré de Cirilo Félix, que tocava na sua casa de putas um fole de oito baixos comandando um conjunto tosco intitulado Cirilo Félix e seus cabras da peste, uma evidente homenagem ao maior sanfoneiro de oito baixos da época, Abdias, líder de Abdias e seus cabras da peste. Sabia que uma puta se chamava Escurinha e era negra, claro. Mas esse não era um assunto para crianças.
Os sete filhos de Mundica Ferreira Pinto: José Nairton, José Noaldo, José Neudson, Nicéa Mary, Mundica Ferreira Pinto, José Nilton, José de Anchieta Filho e José Nêumanne
Ainda era um menino bobo quando papai resolveu aventurar-se nos negócios e abriu uma sorveteria num ponto na Rua do Comércio, defronte ao mercado. Era uma operação comercial obviamente ruinosa, pois papai nunca tinha feito um picolé na vida e não havia eletricidade permanente. Ele teve de importar um sorveteiro de Cajazeiras, Ezequias, e montar um conjunto de gerador e dínamo a Diesel para manter a consistência e a temperatura dos sorvetes. Meu tio Raimundo, médico formado em Recife, sugeriu o nome em homenagem a um lugar muito pouco frio, Alabama, o Estado sulista americano, e o nome pegou: Sorveteria Alabama. Mais do que dos sorvetes de Ezequias, que eram bons, mas não havia uma variação muito grande de sabores, talvez pela escassez de oferta de matéria-prima nas feiras de domingo, lembro-me da “radiola”, uma vitrola enorme que ficava no meio do salão. Miltinho cantava “cara de palhaço, pinta de palhaço” e eu achava engraçadíssimo porque “pinta”, para nós, era o órgão genital masculino, vulgo pênis. Havia também um long playing que o magnífico pianista e intérprete americano Nat King Cole gravou para o público latino-americano, cantando em espanhol e até em português. É um disco maravilhoso e desde sempre aquele negro simpático com chapeuzinho é meu cantor favorito.
Campina Grande, Paraíba. Foto de Ubiracy Vieira Veloso
Já estava em plena adolescência quando foi adicionado ao repertório da sorveteria (que, na era de Paulo Afonso, sob a direção de Nozinho, passou a se chamar Sorvelanches Canaã) o LP O inimitável, de Roberto Carlos – “de que vale tudo isso se você não está aqui?” Mas aí o negócio de sorvetes de meu pai já tinha derretido e eu me mudado para Campina Grande para estudar no Instituto Redentorista Santos Anjos. A inocência da infância ficou boiando no ar na companhia das mensagens sonoras que Peta lia antes dos sucessos musicais que tocava até o motor da luz ser desligado.


Reportagem da TV Tambaú feita pelo jornalista José Vieira Neto sobre a vida do Jornalista e escritor José Nêumanne Pinto.




sábado, 20 de fevereiro de 2016

o merendão se aproxima do primeiro escalão

Mais integrantes de gabinetes próximos ao do governador de São Paulo são citados no esquema de desvios da alimentação escolar
Voorwald e Jardim (à direita) se unvem a Aparecido e Nogueira. O escândalo se aproxima de Alckmin
Em 2009, lei aprovada pelo governo federal estabelecia que 30% dos recursos encaminhados aos estados e aos municípios para merenda escolar deveriam ser adquiridos diretamente da agricultura familiar, priorizando os assentamentos da reforma agrária, comunidades indígenas e quilombolas.
O objetivo claro do artigo 14 da Lei nº 11.947/09 era fazer com que os quase 3,6 bilhões de reais repassados anualmente, por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar, oferecessem merenda saudável aos alunos da rede pública e ao mesmo tempo investissem no pequeno agricultor.
Para facilitar a aquisição dos produtos, determinou-se não ser necessária a licitação e que as compras se fizessem conforme uma modalidade conhecida como chamamento público. O estado ou a prefeitura encarregada de realizar o contrato poderia analisar os preços de diversas cooperativas de agricultores e adquirir pelo menor. No mundo ideal, a legislação aceleraria o processo e ampliaria os negócios entre a administração pública e as cooperativas familiares.
No submundo da política em São Paulo, outro é o sistema. Lobistas, políticos, secretários de estado e até quem deveria zelar pelos interesses dos agricultores, os dirigentes de cooperativas, tornaram-no uma seara de corrupção e desvios de dinheiro.
Com uso de documentos falsos, fraudes em licitações, informações privilegiadas, a quadrilha fez o que bem entendeu com ajuda dos últimos escalões do governo paulista.
Detalhe: os pequenos agricultores não ganhavam com o esquema. Os representantes da cooperativa Coaf, sediada em Bebedouro, no interior de São Paulo, compravam o suco de laranja no mercado aberto e superfaturavam nos contratos com a administração pública.
CartaCapital teve acesso a novos documentos da investigação e a todas as interceptações telefônicas para averiguar que a teia de relações dos investigados com políticos ligados ao governo do estado e à cúpula do PMDB é maior do que se poderia imaginar.
As escutas mostram inclusive que a investigação teria vazado de dentro da área de inteligência da Polícia Civil e da Segurança Pública do governo, alertando os envolvidos da existência dos grampos.
Os nomes de secretários de Alckmin citados nas investigações aumentaram desde que a Operação Alba Branca foi deflagrada no fim do ano passado. Até aquele momento, já haviam sido citados Edson Aparecido, chefe da Casa Civil, e Duarte Nogueira, secretário de Logística e Transportes. Agora, verifica-se que a lista de investigados inclui também o ex-secretário de Educação Herman Voorwald e o atual secretário de Agricultura, Arnaldo Jardim. 
Nas interceptações, os merendeiros afirmam que um membro do PMDB, de nome “Michel”, teria relações próximas com um integrante da executiva estadual do partido e poderia ajudar a abrir novas portas para a cooperativa em outras localidades.
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O Michel citado seria Temer? (Foto: Antonio Cruz/ABr)
De acordo com o depoimento dos investigados, para que a entidade levasse os contratos em São Paulo e nas prefeituras era necessário um comissionamento de 10% a 20% para agentes públicos.
Entre os beneficiados estariam também o tucano Fernando Capez, presidente da Assembleia Legislativa, Baleia Rossi (PMDB) e Nelson Marquezelli (PTB), ambos deputados federais, e Luiz Carlos Gondim (SD), deputado estadual. Todos já negaram as acusações.
Para entender o funcionamento dessa rede de relações, é preciso citar um personagem-chave. Quem fazia a intermediação dos contratos com o estado e com a camarilha política era Marcel Ferreira Júlio, filho do ex-deputado Leonel Júlio, cassado em 1976 por envolvimento no “escândalo das calcinhas”. O parlamentar perdeu o mandato por comprar roupas íntimas femininas com dinheiro público.
Dentro do governo estadual, o principal contato de Ferreira Júlio era “Moita”, chefe de gabinete de Edson Aparecido até um dia antes da deflagração da operação. Ficava a cargo dele a avaliação dos contratos e seu andamento na máquina paulista.
Em uma das ligações interceptadas, Ferreira Júlio conversa com “Moita” sobre a demissão do secretário de Educação, em 4 de dezembro do ano passado, durante o protesto e ocupação das escolas contra o fechamento de unidades de ensino em São Paulo.
Moita manifesta preocupação a respeito de um aditivo no contrato de fornecimento de suco de laranja às escolas. O chefe de gabinete sugere a Ferreira Júlio protocolar a documentação com rapidez porque a notícia da demissão já está na internet. Segundo Moita, seria Voorwald quem “estaria à frente”, e com sua demissão seria necessário correr com a tramitação da papelada.
Rossi
Baleira Rossi teria revelado a existência dos grampos para os investigados (Foto: Gustavo Lima)
“Então, ele é o cara que tava na frente com isso, eu nem sei se continua, então protocola logo”, afirma Moita. Em outra ligação entre o lobista e César Augusto Bertholino, um funcionário da cooperativa, eles também conversam sobre a saída de Voorwald.
Marcel diz que está dentro do Palácio dos Bandeirantes, residência oficial do governador. “Tudo, eu tô no Palácio. O Herman caiu, secretário tá. O Geraldo mandou ele embora. Por isso ele me chamou aqui, tá indicando outro. O nosso amigo aqui tá por enquanto lá.” A investigação aponta que o “nosso amigo” seria Fernando Padula, então chefe de gabinete.
As tramoias envolvendo o roubo da merenda não eram o único objetivo da quadrilha. A Secretaria de Agricultura era de livre trânsito de Ferreira Júlio. Os investigados manifestavam interesse em passar a vender suco também para o sistema de cestas básicas distribuídas pelo estado a famílias carentes.
Em outro diálogo entre o lobista e Bertholino, Marcel fala de “estarem com o secretário de Agricultura”, Arnaldo Jardim, para colocar suco da cooperativa na cesta básica. “Dois milhões de cestas por mês, já pensou?”
As escutas mostram que Marcel tinha trânsito na pasta. Em uma das gravações diz que está chegando à secretaria para falar com “Douglas”, nome desconhecido dos investigadores. No dia 21 de dezembro de 2015, os dois falam de uma discussão dentro da secretaria. Ferreira Júlio diz que foi chamado lá e vai levar “fumo de todo lado para ficar quieto”. 
A rede de relações entre tucanos e peemedebistas, sem excluir integrantes de outros partidos, também tem destaque nas investigações. O lobista e outro funcionário da cooperativa agora conversam a respeito de um integrante da executiva do PMDB de nome Alex, encarregado de “abrir novas portas” em outros municípios. Marcel diz que Alex é muito ligado a “Michel” e vai “abrir muita coisa pra nós”.  
Durante um evento na Secretaria de Desenvolvimento, Ferreira Júlio fala de um encontro com “Baleia”, segundo as investigações, o deputado federal Baleia Rossi (PMDB), presidente estadual da legenda. Também estaria presente o integrante da executiva do partido, Alex.
No diálogo com Bertholino, eles afirmam que “Michel” não estava no local, mas a filha dele, “que é secretária” estaria. O vice-presidente Michel Temer é pai de Luciana Temer, secretária de Assistência Social da prefeitura de São Paulo.  Investigadores esclarecem não ser possível saber se o “Michel” citado nos diálogos é o vice-presidente da República, admitem, no entanto, que novas apurações precisam ser realizadas.
Capez
O MP pediu a quebra de sigilo de Capez (Foto: Rafael Arbex/Estadão Conteúdo)
A proximidade de Ferreira Júlio e de integrantes da cooperativa Coaf com autoridades de São Paulo revela que as investigações foram vazadas para os merendeiros. O inquérito revela que Cássio Chebabi, ex-presidente da cooperativa, teria sido alertado pelo deputado federal Baleia Rossi de que haveria uma investigação em andamento contra ele.
Os investigadores relatam que Chebabi foi o único não grampeado em razão do vazamento da informação. Em um dos depoimentos, um ex-funcionário da Coaf afirma ter ouvido de Chebabi que Baleia Rossi levou propina de contratos em Ribeirão Preto e Campinas.
A aproximação dos merendeiros dentro dos órgãos de investigação ia além. Em um dos grampos, Ferreira Júlio diz que eles têm “relações na Polícia” enquanto, segundo Bertholino, o lobista tem contatos na Segurança.
“Ele consegue levantá tudo. Da onde é, o que é da inteligência. É o do secretário de como é que fala? Do estado né, da segurança, da inteligência.” Um funcionário da Coaf responde: “Ah não, então beleza. Então a gente vai saber o que tá acontecendo”.
 A assessoria de imprensa da Vice-Presidência informou que “Michel Temer não permite a utilização de seu nome para fins ilícitos. O único ‘Alex’ conhecido pelo vice é integrante da Executiva do PMDB da capital, com quem tem apenas relação política formal, sem nenhuma proximidade ou intimidade”.
Uma nota do deputado Baleia Rossi sustenta: “Repudio com veemência o conteúdo dos depoimentos que citaram meu nome, inclusive são pessoas com quem não tenho qualquer relação. As afirmações contidas são inteiramente falsas, absurdas e sem qualquer fundamento. Tão fantasiosas que até o denunciante afirma que não houve entrega de nenhum recurso”.
A Secretaria de Agricultura disse que Arnaldo Jardim “não tem relação com o lobista Ferreira Júlio e que não foi identificado nenhum funcionário da pasta que tenha responsabilidade neste setor ou proximidade com o gabinete de nome Douglas”. O PSDB de São Paulo e a Secretaria de Educação informaram que não tinham os contatos do ex-secretário Herman Voorwald.
Com relação ao andamento dos inquéritos, como os políticos têm prerrogativa de foro, a investigação foi desmembrada para a Procuradoria-Geral de Justiça e da República. Resta saber até onde os órgãos estão interessados em devassar o labirinto do Merendão paulista.
*Reportagem publicada originalmente na edição 888 de CartaCapital, com o título "O merendão azeda"








sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Os últimos momentos de Che

Trecho do “Livro Ernesto Che Guevara, também conhecido como CHE”, pag. 596-598


Na solidão do quarto, Che pede aos guardas (que o vigiava) que lhe permitam conversar com a professora da escola, Julia Cortez. Ela conta que Che lhe disse:
- Ah!, a senhora é a professora. A senhora sabe que o “e” de se não tem acento em 'já se ler'? - e aponta para a lousa. É claro, em Cuba não há escolas como esta. Para nós isto seria uma prisão. Como é que os filhos dos camponeses podem estudar aqui? Isto é antipedagógico.
- O nosso país é pobre, responde a professora.
- Mas os funcionários do governo e os generais têm Mercedes e muitas outras coisas, não é mesmo? Contra isso é que nós lutamos.
- O senhor veio de muito longe para lutar na Bolívia.
- Sou revolucionário e já estive em muitos lugares.
-  O senhor veio matar nossos soldados.
Olhe, na guerra se ganha ou se perde.
Em que momento o coronel Zenteno terá transmitido a ordem presidencial de assassinar Che? Félix Rodríguez (cubano anticastrista, agente da Cia) terá tentado convencê-lo a não matar, pois útil nesse momento Che era mais útil vivo que morto?
Rodríguez conta que conversou com Che durante urna hora e meia, e que inclusive o comandante lhe pediu que transmitisse a Fidel a mensagem de que a revolução latino-americana triunfaria e que dissesse a sua mulher que se casasse de novo e fosse feliz.
O fato é que às onze horas e quarenta e cinco minutos Zenteno pega o fuzil de Che e parte no helicóptero que acabou de voltar.
Ao meio-dia, Che pede permissão para conversar de novo com a professora, mas ela não quer, está com medo.
Enquanto isso, a uns 500 ou 600 metros do povoado, os guerrilheiros sobrevivente esperam a noite chegar para fazerem alguma coisa. Alarcón conta: “Ficamos sabendo que o Che estava preso (...). Escutávamos as notícias em um rádio pequenino que tínhamos, com os fones (...). Acreditamos que se tratava de uma desinformação do exército. No entanto, por volta das dez da manhã já estavam dizendo que o Che estava morto e (...) falavam de uma foto que ele levava no bolso com a sua esposa e filhos. Quando os três cubanos aquilo nos olhamos fixamente, enquanto as lágrimas corriam em silêncio (...). Era a prova que Che tinha morrido em combate. Nem passou pela nossa cabeça que ele estava vivo, a pouco mais de 500 metros dali”.
 Na metade da manhã, Ayoroa solicita voluntários entre os rangers para a tarefa de carrasco. O suboficial Mario Terán pede para matar Che; um soldado recorda: "como argumento, dizia que tinham morrido três Mários da Companhia B e como homenagem a eles deviam lhe dar o direito de matar o Che". Estava um pouco bêbado. O sargento Bernardino Huanca ofereceu-se para assassinar os companheiros de Che.
Depois da uma da tarde, Terán, de baixa estatura - não devia medir mais de 1,60 m, atarracado, 65 quilos -, entrou no quartinho da escola onde o Che estava. Trazia nas mãos um M-2 que pedira emprestado ao suboficial Pérez. No quarto ao lado, Huanca acabava com Chino e Simón.
Che estava sentado em um banco, com os pulsos amarrados, encostado na parede. Terán vacila, diz alguma coisa, Che responde:
- Nem se incomode. Você veio me matar.
Terán faz um movimento como se fosse ir embora e dispara a primeira rajada, respondendo à frase que, quase 30 anos depois, dizem que Che proferiu: — Atire, covarde, que vai matar um homem!
"Quando entrei na sala, o Che estava sentado num banco. Quando me viu, disse: Você veio me matar. Eu não tinha coragem de disparar, e então o homem me disse: Fique calmo, você vai matar um homem. Então, dei um passo para trás, rumo à soleira da porta, fechei os olhos e disparei a primeira rajada. Che caiu no chão com as pernas destroçadas, contorceu-se e começou a perder muito sangue. Recuperei o ânimo e disparei a segunda rajada, que o atingiu no braço, em um ombro e no coração".
Pouco depois, o suboficial Carlos Pérez entra no quarto e dispara contra o corpo.
Não será o único: o soldado Cabero, para vingar a morte de seu amigo Manuel Morales, também dispara contra Che. 
As diferentes testemunhas parecem concordar sobre a hora da morte de Ernesto Che Guevara: uma e dez da tarde do domingo, 9 de outubro de 1967.
A professora grita com os assassinos.
Um padre dominicano de uma paróquia próxima tenta chegar a tempo para falar com Ernesto Guevara. O sacerdote Roger Schiller conta: "Quando me inteirei que o Che estava preso em La Higuera, consegui um cavalo, e_foi para lá. Queria confessá-lo. Sabia que ele tinha dito estou frito. Eu queria lhe dizer:
- O senhor não está frito. Deus continua acreditando no senhor.
Pelo caminho, encontrei um camponês:
- Não se apresse, padre - me disse ele - já o liquidaram".
Por volta das quatro da tarde, o capitão Gary Prado retorna ao povoado depois da última incursão dos rangers pelas quebradas adjacentes. Na entrada de La Higuera o major informa que executara Che. Prado faz um gesto de desgosto. Ele o havia capturado vivo. Preparam-se para levar o corpo em um helicóptero. Prado amarra sua mandíbula com um lenço para o corpo não se distorcer.
Um fotógrafo ambulante tira fotos dos soldados que cercam o cadáver, colocado em uma maca; são fotos domingueiras, provincianas, só os sorrisos estão ausentes. Uma foto registra Prado, o padre Schiller e dona Ninfa ao lado do corpo.
O padre entra na escola. Não sabe o que fazer: recolhe os cartuchos e os guarda; depois, começa a lavar as manchas de sangue. Quer limpar parte do terrível pecado mataram um homem na escola.
Mario Terán recebe a promessa de um relógio e de uma viagem a West Point para realizar um curso de suboficiais. As promessas não serão cumpridas.
O helicóptero eleva-se, levando amarrado ao seu patim, no trem de pouso o cadáver de Che Guevara.



quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Três posições sexuais que dispensam a academia


A semana começou e você já pensa naquela preguicinha que dá deixar a pessoa que dormiu ao seu lado em casa e ir para a academia. 
Mas se você quer queimar calorias, uma boa companhia pode tornar a atividade divertida e eficiente. 

Olha só:

Pernas fortes
Você por cima, sentada sobre ele, faz agachamento. Para dar um up no exercício, você ainda pode ir para cima e para baixo e depois para frente e para trás.

Pratique 5 exercícios que podem melhorar sua vida sexual

Peito no lugar
Ficar de quatro é a posição que mais anima muitos homens. Para curtir o sexo e ainda malhar, flexione os braços, como uma flexão da academia mesmo.

Saiba quais benefícios o sexo traz para sua saúde

Bumbum e coxas durinhas
Ele senta, você vai em cima dele com um pé no chão e outro no lugar em que ele está sentado. O agachamento vai ser o mais prazeroso que você já fez. Quando cansar, troque as pernas.

Você tem alguma dúvida sobre sexo? Manda para mim no preliminarescomcarol@yahoo.com.br e siga-me no Twitter (@carolpatrocinio).